Sexualidade Masculina: Muito Além dos Mitos e Tabus modernos
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Convenhamos: "-Homem que recusa sexo com uma garota só pode ser viado". Com toda certeza você já ouviu alguma frase parecida com essa. Ela tem tantas camadas de coisa errada que não convêm destrinchar cada uma aqui. Pelo menos, não agora, ao invés disso te chamo a reflexão sobre uma perspectiva pouco convencional.
É perturbador perceber como a masculinidade e a sexualidade dos homens são frequentemente interpretadas com estereótipos distorcidos, até mesmo por aqueles que deveriam ser nossos guias na saúde mental. Refletindo sobre minha condição de homem e a vasta quantidade de comentários e informações erradas que permeiam esses temas, sinto-me compelido a escrever este breve artigo de uma perspectiva particular. É lamentável que até mesmo profissionais da saúde perpetuem conceitos que, ao invés de esclarecer, obscurecem a verdadeira natureza do tal ser "Homem". Este texto nasce da necessidade de desmistificar tais concepções, oferecendo uma visão mais ampla, autêntica e humana sobre o que significa ser homem em nossa sociedade.
Quantas vezes você já ouviu alguém falar que os homens são simples, "muito visuais" ou que "desejo masculino é instintivo"? Pois é, esses mitos sobre o comportamento masculino estão tão enraizados que, por vezes, (nós da área da saúde mental) não conseguimos realmente ajudar os caras que nos procuram em busca de apoio.
Ao invés de escutarmos o que eles dizem, caímos na armadilha dos velhos estereótipos. E sabe o que é mais curioso? A ciência já nos mostrou, há décadas, que a sexualidade humana – é muito mais complexa do que essas ideias simplistas.
A abordagem biopsicossocial, por exemplo, não é nenhuma novidade na área da saúde. Ela vem lá dos anos 70, quando médicos e profissionais de saúde começaram a entender que, ao tratar da saúde, era essencial olhar para o ser humano como um todo.

E isso não se limita apenas à sexualidade, mas à saúde como um todo. Seres humanos têm um corpo biológico, sim, mas também vivem em contextos sociais e psicológicos que influenciam sua vida. A relação entre corpo e mente, um dos temas centrais da psicologia, está presente em tudo – inclusive na sexualidade.
Agora, pense comigo: se sabemos que a sexualidade feminina é complexa, cheia de nuances psicológicas e sociais, por que tantas pessoas ainda acham que com os homens a história é completamente diferente? Há quem trate os homens como se fossem máquinas, e trata suas funções sexuais como algo puramente biológico, sem nenhum componente relacional, comportamental ou emocional. Como se a ereção fosse o único indicador de desejo, sem nenhuma ligação com o contexto a cognição ou as emoções.
Falam que nós, não buscamos ajuda como as mulheres, mas pense comigo, que motivação você teria para expor seu emocional e sua intimidade a uma psicóloga que te julga antes de entrar no consultório dentro de uma cartilha, um molde politico como: Potencial machista privilegiado, opressor, agressor e sem ter respeitada sua dignidade Humana particularidades e complexidades individuais?
Quebrando os Mitos Sobre o Desejo Masculino
Quando olhamos para a ciência, ela nos mostra que o desejo sexual humano, não é algo que surge do nada, como um ataque de pânico. Ele é uma resposta a estímulos, sejam eles físicos, emocionais ou relacionais.
E a forma como esse desejo se manifesta na Sexualidade Masculina varia de pessoa para pessoa e de situação para situação. Existem, por exemplo, diferentes tipos de desejo: o desejo espontâneo (aquele que parece surgir do nada, mas que na verdade é uma resposta a estímulos automáticos que a gente talvez não tenha percebido), o desejo responsivo (quando o corpo responde à excitação e o desejo cresce a partir daí) e o desejo diádico (aquele que surge em função de uma relação afetiva com outra pessoa).
O curioso é que, para os homens, muitas vezes o desejo diádico é ignorado em discussões sobre sexualidade. Por algum motivo, existe essa crença de que os homens querem transar com qualquer pessoa que passe pela frente, quando, na verdade, o desejo masculino também está profundamente conectado a aspectos emocionais e relacionais. E, sim, homens também têm necessidades emocionais. Surpreso(a)? Mas é a pura verdade, tambem somos humanos.
Pois é, sabe aquela ladainha que algum projeto de psicólogo de boteco metido a sociólogo fala? -"homem não recusa sexo"? e bla, bla, bla "-Homens são simples, Tá deprimido? é só ter, sexo, cerveja e futebol..." Outro preconceito com fundamento em piadinha que ja vi sair da boca de Psicóloga e até de Palestrante famoso. Desculpe o tom irônico caro leitor, mas como profissional dedicado não nutro nenhum tipo de respeito por profissionais que propagam este tipo de papagaiada. Agora voltamos a ciência.
Fatores Biológicos e psicológicos na sexualidade masculina
Claro, há uma base biológica importante no desejo sexual. Testosterona, por exemplo, tem um papel fundamental, mas é importante notar que não é uma questão de “quanto mais, melhor”. A testosterona precisa estar em níveis funcionais, mas ter mais hormônio não significa necessariamente mais desejo é necessário avaliar outros fatores e até a interação com outras substancias. Outro hormônio que afeta o desejo é a prolactina, que em excesso pode reduzir o apetite sexual.
Aposto que você nunca ouviu falar, mas todo bom médico, endocrinologista e urologista sabem que existe o ciclo hormonal do Homem.
Os ciclos hormonais masculinos, embora menos discutidos que os femininos, desempenham um papel crucial na saúde e no bem-estar. A testosterona, o principal hormônio masculino, apresenta variações diárias e sazonais que podem influenciar o humor, a energia e o comportamento. Níveis elevados de testosterona estão associados a maior confiança e agressividade, enquanto níveis mais baixos podem levar a sentimentos de fadiga e depressão. Além disso, desequilíbrios hormonais podem afetar a saúde física, contribuindo para problemas como ganho de peso, perda de massa muscular e disfunção erétil. Compreender esses ciclos e suas implicações pode ajudar os homens a gerenciar melhor sua saúde e bem-estar emocional.
Além disso, outras questões de saúde física e mental também têm impacto direto no desejo sexual. Problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, podem influenciar a libido dos homens.
Nós não somos máquinas que respondem automaticamente a estímulos físicos de qualquer maneira sem qualquer influência do contexto social, emocional ou psicológico.
A depressão pode ter um impacto significativo na vida sexual dos homens, tanto do ponto de vista biológico quanto psicológico. A condição frequentemente leva a uma diminuição da libido, devido à redução dos níveis de testosterona e outros hormônios sexuais. Além disso, a depressão pode causar disfunção erétil, dificultando a capacidade de manter uma ereção. A falta de interesse sexual e a dificuldade em alcançar a excitação podem criar um ciclo vicioso, onde a frustração e a baixa autoestima exacerbam ainda mais os sintomas depressivos, afetando negativamente a qualidade de vida e os relacionamentos íntimos.
A ansiedade, por sua vez, também pode influenciar profundamente a vida sexual dos homens. A resposta fisiológica ao estresse e à ansiedade inclui a liberação de hormônios como o cortisol, que pode interferir na produção de testosterona e na função sexual. Homens ansiosos podem experimentar dificuldades em manter uma ereção ou ejacular prematuramente, devido à hiperatividade do sistema nervoso simpático. A preocupação constante com a vida financeira e sobre o desempenho sexual pode levar a um estado de alerta contínuo, prejudicando a intimidade e a satisfação sexual. Assim como na depressão, a ansiedade pode criar um ciclo de medo e frustração, impactando negativamente a saúde sexual e emocional.
Humanizando o Cuidado nos serviços de saúde integral
A grande mensagem aqui é que nós homens somos seres humanos complexos. A ciência já nos mostra isso há muito tempo. Temos emoções, estamos inseridos em contextos sociais e vivemos processos psicológicos que influenciam nossa expressão sexual.
Portanto, ao cuidar da saúde sexual masculina, não podemos reduzir tudo a "está funcionando ou não" ou a estereótipos de sexo e gênero. É preciso olhar para o ser humano por completo, entendendo suas necessidades emocionais e o impacto que o contexto biopsicossocial tem em nossa vida.
Homem também é gente, e isso deve guiar qualquer abordagem de cuidado. Quando entendemos isso, estamos um passo mais perto de oferecer um cuidado de verdade.
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