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Nem tudo melhora com o tempo: quando adiar a vida custa mais do que errar

Deixa eu te contar uma história simples. Mas daquelas que não fazem barulho na hora mas fazem eco na cabeça da gente depois.


O pai de uma amiga abriu um vinho português importado. Caro. Raro. Especial. Era uma comemoração importante: o aniversário da filha dele, neta do homem que havia guardado aquela garrafa por anos.


O sogro já tinha falecido. Nunca chegou a provar o vinho que tanto protegeu.

Quando finalmente abriram a garrafa… o gosto era de vinagre. Não porque o vinho fosse ruim. Mas porque ficou guardado tempo demais. E do jeito errado.


Garrafa de Vinho, taça e barril

Essa cena, aparentemente banal, para mim representou uma metáfora profunda sobre como nem tudo melhora com o tempo: e adiar decisões pode custar mais caro que errar, percebi que agir no "agora" transforma resultados e oportunidades a forma como tratamos a nossa própria vida pode nos trazer grandes resultados a longo prazo, mas para isso é necessário agir.


O hábito silencioso de adiar a própria existência


Quantas vezes você já disse para si mesmo:

  • “Depois eu cuido da minha saúde.”

  • “Depois eu faço aquela viagem.”

  • “Depois eu começo a terapia.”

  • “Depois eu mudo de trabalho.”

  • “Depois eu chamo aquela pessoa para conversar.”

  • "Depois tenho aquela conversa difícil com meu cônjuge"


E o depois vai passando. Sem alarde. Sem aviso prévio.


Na Psicologia, esse fenômeno tem nome: adiamento experiencial.

Ele ocorre quando a pessoa evita viver experiências importantes no presente, acreditando que no futuro haverá um momento emocionalmente mais seguro, mais estável ou mais perfeito para agir. O problema é que esse momento, quase sempre, não chega.


Segundo a Terapia Cognitivo-Comportamental, esse padrão está fortemente associado à evitação emocional e à ansiedade antecipatória — o medo do desconforto imediato faz com que a pessoa postergue decisões essenciais para sua saúde mental (HAYES et al., 1996; BECK, 2013).


O mito de que o tempo, sozinho, resolve tudo: Nem tudo melhora com o tempo


Vivemos sob uma crença cultural perigosa: a ideia de que o tempo melhora tudo.


Mas a Psicologia é clara ao nos alertar: o tempo não transforma — quem transforma é o comportamento é analise e ações conscientes.

Em muitos casos, o tempo apenas consolida padrões. Consolida relações mal resolvidas. Consolida insatisfações profissionais. Consolida sintomas emocionais ignorados.


Assim como o vinho da história, nem tudo amadurece com o tempo. Algumas coisas, quando não cuidadas, estragam.


Adiar não dói agora — mas cobra juros emocionais depois


Do ponto de vista da TCC, o adiamento funciona como um alívio de curto prazo. Você evita a ansiedade agora. Evita o conflito agora. Evita o medo agora.


Mas paga depois com:


  • Culpa

  • Arrependimento

  • Sensação de vida travada

  • Sintomas de ansiedade e depressão


Estudos mostram que a procrastinação experiencial está associada a maior sofrimento psicológico, menor senso de propósito e pior qualidade de vida (SVARTDAL et al., 2020).


O sofrimento não vem apenas do que deu errado. Muitas vezes, ele nasce do que nunca foi tentado.


O maior arrependimento não costuma ser o erro — é a omissão


Em sua prática clínica, muitos psicólogos relatam algo semelhante: raramente as pessoas se arrependem de ter tentado.

Elas se arrependem de:


  • Não ter dito o que sentiam

  • Não ter cuidado da saúde a tempo

  • Não ter vivido experiências significativas

  • Não ter buscado ajuda quando ainda havia energia emocional


A Psicologia Existencial e a Psicologia Positiva reforçam que uma vida com sentido é construída por ações alinhadas a valores, não pela espera de condições perfeitas (FRANKL, 2006; SELIGMAN, 2011).


A metáfora do vinho e a urgência de viver no tempo possível


Aquele vinho, no tempo certo, provavelmente teria sido extraordinário. Mas quem guardou… nunca sentiu o sabor.


Quantas partes da sua vida você está guardando demais?

Quantas decisões estão esperando um “momento ideal” que talvez nunca venha?


A saúde emocional, os vínculos e os sonhos também têm prazo. E diferente do vinho, eles não avisam quando estão passando do ponto.


Viver agora não é impulsividade — é responsabilidade emocional


Viver o agora não significa agir sem pensar no tempo presente. Significa não terceirizar a própria vida para um futuro imaginário.

A TCC nos ensina que pequenas ações consistentes no presente têm mais impacto do que grandes planos eternamente adiados. Cuidar da saúde emocional hoje é um investimento — não um luxo.

Talvez a pergunta mais honesta não seja: “E se der errado?”

Mas sim:


“E se eu adiar até não dar mais tempo?”


Referências


BECK, J. S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.


FRANKL, V. E. Em busca de sentido. 35. ed. Petrópolis: Vozes, 2006.


HAYES, S. C.; WILSON, K. G.; GIFFORD, E. V.; FOLLETTE, V. M.; STROSAHL, K. Experiential avoidance and behavioral disorders: A functional dimensional approach to diagnosis and treatment. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 64, n. 6, p. 1152–1168, 1996.


SELIGMAN, M. E. P. Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.


SVARTDAL, F. et al. Procrastination and well-being: A systematic review. Frontiers in Psychology, v. 11, p. 1–16, 2020.

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Jackson Ferreira

Psicologia e desenvolvimento pessoal
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