Nem tudo melhora com o tempo: quando adiar a vida custa mais do que errar
- unidadepsi
- há 2 dias
- 4 min de leitura
Deixa eu te contar uma história simples. Mas daquelas que não fazem barulho na hora mas fazem eco na cabeça da gente depois.
O pai de uma amiga abriu um vinho português importado. Caro. Raro. Especial. Era uma comemoração importante: o aniversário da filha dele, neta do homem que havia guardado aquela garrafa por anos.
O sogro já tinha falecido. Nunca chegou a provar o vinho que tanto protegeu.
Quando finalmente abriram a garrafa… o gosto era de vinagre. Não porque o vinho fosse ruim. Mas porque ficou guardado tempo demais. E do jeito errado.

Essa cena, aparentemente banal, para mim representou uma metáfora profunda sobre como nem tudo melhora com o tempo: e adiar decisões pode custar mais caro que errar, percebi que agir no "agora" transforma resultados e oportunidades a forma como tratamos a nossa própria vida pode nos trazer grandes resultados a longo prazo, mas para isso é necessário agir.
O hábito silencioso de adiar a própria existência
Quantas vezes você já disse para si mesmo:
“Depois eu cuido da minha saúde.”
“Depois eu faço aquela viagem.”
“Depois eu começo a terapia.”
“Depois eu mudo de trabalho.”
“Depois eu chamo aquela pessoa para conversar.”
"Depois tenho aquela conversa difícil com meu cônjuge"
E o depois vai passando. Sem alarde. Sem aviso prévio.
Na Psicologia, esse fenômeno tem nome: adiamento experiencial.
Ele ocorre quando a pessoa evita viver experiências importantes no presente, acreditando que no futuro haverá um momento emocionalmente mais seguro, mais estável ou mais perfeito para agir. O problema é que esse momento, quase sempre, não chega.
Segundo a Terapia Cognitivo-Comportamental, esse padrão está fortemente associado à evitação emocional e à ansiedade antecipatória — o medo do desconforto imediato faz com que a pessoa postergue decisões essenciais para sua saúde mental (HAYES et al., 1996; BECK, 2013).
O mito de que o tempo, sozinho, resolve tudo: Nem tudo melhora com o tempo
Vivemos sob uma crença cultural perigosa: a ideia de que o tempo melhora tudo.
Mas a Psicologia é clara ao nos alertar: o tempo não transforma — quem transforma é o comportamento é analise e ações conscientes.
Em muitos casos, o tempo apenas consolida padrões. Consolida relações mal resolvidas. Consolida insatisfações profissionais. Consolida sintomas emocionais ignorados.
Assim como o vinho da história, nem tudo amadurece com o tempo. Algumas coisas, quando não cuidadas, estragam.
Adiar não dói agora — mas cobra juros emocionais depois
Do ponto de vista da TCC, o adiamento funciona como um alívio de curto prazo. Você evita a ansiedade agora. Evita o conflito agora. Evita o medo agora.
Mas paga depois com:
Culpa
Arrependimento
Sensação de vida travada
Sintomas de ansiedade e depressão
Estudos mostram que a procrastinação experiencial está associada a maior sofrimento psicológico, menor senso de propósito e pior qualidade de vida (SVARTDAL et al., 2020).
O sofrimento não vem apenas do que deu errado. Muitas vezes, ele nasce do que nunca foi tentado.
O maior arrependimento não costuma ser o erro — é a omissão
Em sua prática clínica, muitos psicólogos relatam algo semelhante: raramente as pessoas se arrependem de ter tentado.
Elas se arrependem de:
Não ter dito o que sentiam
Não ter cuidado da saúde a tempo
Não ter vivido experiências significativas
Não ter buscado ajuda quando ainda havia energia emocional
A Psicologia Existencial e a Psicologia Positiva reforçam que uma vida com sentido é construída por ações alinhadas a valores, não pela espera de condições perfeitas (FRANKL, 2006; SELIGMAN, 2011).
A metáfora do vinho e a urgência de viver no tempo possível
Aquele vinho, no tempo certo, provavelmente teria sido extraordinário. Mas quem guardou… nunca sentiu o sabor.
Quantas partes da sua vida você está guardando demais?
Quantas decisões estão esperando um “momento ideal” que talvez nunca venha?
A saúde emocional, os vínculos e os sonhos também têm prazo. E diferente do vinho, eles não avisam quando estão passando do ponto.
Viver agora não é impulsividade — é responsabilidade emocional
Viver o agora não significa agir sem pensar no tempo presente. Significa não terceirizar a própria vida para um futuro imaginário.
A TCC nos ensina que pequenas ações consistentes no presente têm mais impacto do que grandes planos eternamente adiados. Cuidar da saúde emocional hoje é um investimento — não um luxo.
Talvez a pergunta mais honesta não seja: “E se der errado?”
Mas sim:
“E se eu adiar até não dar mais tempo?”
Referências
BECK, J. S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
FRANKL, V. E. Em busca de sentido. 35. ed. Petrópolis: Vozes, 2006.
HAYES, S. C.; WILSON, K. G.; GIFFORD, E. V.; FOLLETTE, V. M.; STROSAHL, K. Experiential avoidance and behavioral disorders: A functional dimensional approach to diagnosis and treatment. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 64, n. 6, p. 1152–1168, 1996.
SELIGMAN, M. E. P. Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
SVARTDAL, F. et al. Procrastination and well-being: A systematic review. Frontiers in Psychology, v. 11, p. 1–16, 2020.













































Comentários