top of page

Quando alguém fica para trás: o que o caso do Pico Paraná revela sobre empatia, inteligência emocional e comportamento humano

Cinco dias perdido na mata fechada. Mais de 20 quilômetros percorridos em terreno íngreme, frio, exaustão física e risco real de morte.


A história do jovem de 20 anos encontrado com vida após desaparecer no Pico Paraná poderia ser apenas mais uma notícia de superação. Mas ela escancara algo mais profundo — e perturbador: o impacto psicológico de ser abandonado em um momento de vulnerabilidade.


Foto de rapaz que se perdeu no pico paraná
Foto: Reprodução de Matéria Jornalística

Segundo os relatos, o jovem passou mal durante a trilha e acabou ficando para trás, enquanto a “amiga” seguiu sozinha o caminho de retorno. O desfecho foi feliz do ponto de vista físico. Do emocional, ainda é cedo para afirmar.


Sobrevivência física não apaga marcas emocionais


Na Psicologia, sabemos que situações extremas ativam intensamente o sistema de estresse do organismo. Medo, sensação de ameaça e abandono disparam respostas neurofisiológicas ligadas ao eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, elevando níveis de cortisol e adrenalina (McEWEN, 2017).


Mesmo quando a pessoa sobrevive, o corpo e a mente não “esquecem” facilmente.


Experiências assim podem gerar:


  • Hipervigilância

  • Dificuldade de confiar em pessoas

  • Pensamentos recorrentes sobre o ocorrido

  • Alterações no sono

  • Sentimentos de humilhação, raiva ou culpa


A TCC explica que eventos traumáticos moldam crenças centrais, como:


“Não posso contar com ninguém”

“Quando eu preciso, sou descartável”


Se não elaboradas, essas crenças passam a influenciar escolhas futuras e relacionamentos (BECK, 2013).


O abandono como experiência psicológica no comportamento humano


Do ponto de vista psicológico e da avaliação do comportamento humano, ser deixado para trás ativa uma das dores emocionais mais primitivas do ser humano: a exclusão social.


Estudos mostram que o cérebro reage ao abandono social de forma semelhante à dor física, ativando áreas como o córtex cingulado anterior (EISENBERGER; LIEBERMAN, 2004).


Não se trata apenas de uma falha de caráter ou julgamento moral — mas de um impacto profundo na percepção de segurança emocional.


Empatia não é simpatia — é responsabilidade


Muito se falou sobre o tom de indiferença percebido nos relatos da jovem que seguiu a trilha sozinha e abandonou o amigo. Independentemente de julgamentos públicos, o caso traz uma reflexão importante: nem todo mundo possui empatia funcional.


Empatia não é apenas “sentir pena”. É a capacidade de:


  • Reconhecer o sofrimento do outro

  • Considerar consequências

  • Ajustar comportamentos diante da vulnerabilidade alheia


Na Psicologia, déficits empáticos podem estar associados a traços de personalidade, imaturidade emocional ou estratégias de autoproteção aprendidas ao longo da vida (BATSON, 2011).


Inteligência emocional também é saber de quem se afastar


Uma das lições mais duras — e necessárias — que a Psicologia ensina é esta: inteligência emocional não serve apenas para lidar com emoções, mas para escolher vínculos.


Pessoas com baixa empatia:


  • Minimizam a dor do outro

  • Fogem de responsabilidade emocional

  • Tendem a abandonar quando a situação exige cuidado e presença


E é justamente nos piores momentos que elas costumam ir embora.


A TCC trabalha fortemente o desenvolvimento de habilidades de discernimento emocional, ajudando o indivíduo a identificar padrões relacionais disfuncionais e a estabelecer limites mais saudáveis (DOBSON; DOZOIS, 2019).


Proteger-se emocionalmente também é um ato de saúde mental.


A romantização da aventura e a negação do risco


Outro ponto relevante é a romantização de trilhas e aventuras sem preparo adequado. Ambientes naturais exigem planejamento, leitura de risco e, sobretudo, responsabilidade coletiva.


Na Psicologia Social, chamamos isso de responsabilidade difusa: quando o indivíduo acredita que o problema “não é mais com ele” e transfere implicitamente o cuidado para outros fatores ou pessoas (DARLEY; Latané, 1968).


Homem na montanha admirando a paisagem
Psicólogo Jackson Ferreira com 16 anos de experiência em trilhas e montanhas.

Na natureza, pensar dessa forma (sem senso de responsabilidade) pode custar caro — às vezes, até a vida. Falo isso com propriedade: pratico trilha e rapel há anos, e aprendi a respeitar a força bruta do ambiente selvagem sem qualquer romantização. A paisagem é deslumbrante, sim, mas também é indomável e implacável.


Sobreviver é um mérito. Elaborar é uma necessidade.


O jovem sobreviveu graças à resistência física, à capacidade de orientação e, provavelmente, a um forte instinto de autopreservação. Mas a elaboração psicológica do trauma é o que permitirá que essa história não se transforme em ferida aberta.


Buscar acompanhamento psicológico após experiências extremas não é sinal de fraqueza. É sinal de inteligência emocional.


Como psicólogo, posso afirmar: quase todos os traumas que chegam ao consultório não foram causados por inimigos — mas por pessoas próximas que falharam quando mais eram necessárias.


Referências


BATSON, C. D. Altruism in humans. Oxford: Oxford University Press, 2011.


BECK, J. S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.


DARLEY, J. M.; LATANÉ, B. Bystander intervention in emergencies: Diffusion of responsibility. Journal of Personality and Social Psychology, v. 8, n. 4, p. 377–383, 1968.


DOBSON, K. S.; DOZOIS, D. J. A. Handbook of cognitive-behavioral therapies. 4. ed. New York: Guilford Press, 2019.


EISENBERGER, N. I.; LIEBERMAN, M. D. Why rejection hurts: a common neural alarm system for physical and social pain. Trends in Cognitive Sciences, v. 8, n. 7, p. 294–300, 2004.


McEWEN, B. S. Neurobiological and systemic effects of chronic stress. Chronic Stress, v. 1, p. 1–11, 2017.

Comentários


Destaque

 Posts Recentes

Aquivo

Follow Us

  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

Jackson Ferreira

Psicologia e desenvolvimento pessoal
CRP: 06/113929

  • Icone Instagran
  • Facebook
  • Icone Faceboock

© 2013 Psicologo Jackson Ferreira, All rights reserved.

bottom of page