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Será que Você Faz Omelete Errado? — ou talvez só aprendeu uma receita diferente para viver

  • 7 de jan.
  • 3 min de leitura

Eu descobri aos 25 anos que fazia omelete errado…ou, pelo menos, foi isso que pensei no primeiro momento.


Na casa dos meus pais, omelete era uma massa fofa, com ovos batidos em neve, farinha de mandioca e sardinha bem temperada. Aquilo era omelete. Ponto final.


Cresci acreditando que aquela era a definição oficial — não escrita em dicionários, mas gravada na memória afetiva.


Até que, aos 25 anos, fui almoçar na casa de uma amiga. Ela sorriu e disse:

Hoje o almoço é omelete.


Fiquei feliz.

Mas quando o prato chegou à mesa, pensei em silêncio:

-“Tem algo errado aqui.”


Não era fofo.

Não tinha farinha.

Muito menos sardinha.


Na minha cabeça, aquele omelete estava… errado.


omeletes diferentes

Até que caiu a ficha: errado não era o omelete dela. Eu é que estava preso ao modelo de omelete que aprendi dentro da minha casa.


As receitas invisíveis que aprendemos para viver


Na Psicologia Cognitivo-Comportamental, chamamos isso de crenças nucleares.

São ideias profundas, aprendidas muito cedo, geralmente na infância, que passam a funcionar como verdades absolutas sobre o mundo, as pessoas e nós mesmos.

Não são pensamentos conscientes. São lentes pelas quais enxergamos a vida.


Exemplos comuns:


  • “Relacionamento tem que ser assim.”

  • “Trabalho é sofrimento.”

  • “Amor dói.”

  • “Se não for do meu jeito, está errado.”

  • “Se eu relaxar, tudo desmorona.”


Essas crenças não surgem do nada. Elas se formam a partir das experiências familiares, culturais e emocionais que tivemos. Segundo Aaron Beck, fundador da TCC, elas estruturam nossa percepção da realidade e influenciam diretamente nossas emoções e comportamentos (BECK, 2013).


O problema não é aprender um jeito — é acreditar que só existe aquele as vezes precisamos de uma receita diferente para viver


Aprender uma forma de viver não é o problema. O problema começa quando confundimos aprendizado com verdade universal.


Quando fazemos isso, passamos a julgar:


  • A vida do outro

  • As escolhas do outro

  • O jeito do outro amar, trabalhar, descansar, existir


Quantas vezes você já olhou para alguém e pensou: “Isso tá errado.”


Quando, na verdade, só era diferente do que te ensinaram.


A Psicologia Social mostra que temos uma forte tendência ao viés de confirmação: buscamos evidências que reforcem aquilo em que já acreditamos e rejeitamos, quase automaticamente, o que ameaça nossas crenças (KAHNEMAN, 2012).


Quando a rigidez emocional vira sofrimento


Crenças rígidas trazem uma falsa sensação de segurança. Mas cobram um preço alto: sofrimento emocional, conflitos e dificuldade de adaptação.


Na clínica, é comum ouvir frases como:


  • “Todo relacionamento meu termina igual.”

  • “Nenhum trabalho me satisfaz.”

  • “As pessoas sempre me decepcionam.”


Muitas vezes, não é a vida que está errada. É a receita emocional que nunca foi revisada.


A TCC mostra que flexibilizar crenças centrais reduz sintomas de ansiedade, depressão e melhora a qualidade dos relacionamentos (DOBSON; DOZOIS, 2019).


Talvez você não esteja vivendo errado — só esteja repetindo a receita que te deram


Essa é uma das reflexões mais libertadoras da psicologia: nem tudo o que você aprendeu precisa ser mantido.


Algumas receitas funcionam. Outras fizeram sentido em um contexto específico, mas não sustentam mais quem você é hoje.

Revisar crenças não significa trair sua história. Significa honrá-la, escolhendo conscientemente o que fica e o que precisa ser transformado. Então Vamos criar uma receita diferente para viver?


Até por que: Pessoas inteligentes aprendem com os erros; pessoas sábias aprendem a reprogramar seus roteiros emocionais.


Terapia não ensina a receita certa — ensina a escolher


A psicoterapia não entrega um novo “manual de vida”. Ela ajuda você a perceber que existem várias formas legítimas de fazer omelete — e de viver.


Ela amplia repertório emocional, flexibiliza crenças e devolve algo essencial: a liberdade de escolher como você quer conduzir sua própria existência.

Talvez a pergunta não seja: “Minha vida está errada?”


Mas sim: “Essa receita ainda faz sentido para quem eu me tornei?”


Referências


BECK, J. S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.


BECK, A. T.; HAIGH, E. A. P. Advances in cognitive theory and therapy: The generic cognitive model. Annual Review of Clinical Psychology, v. 10, p. 1–24, 2014.


DOBSON, K. S.; DOZOIS, D. J. A. Handbook of cognitive-behavioral therapies. 4. ed. New York: Guilford Press, 2019.


KAHNEMAN, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.


YOUNG, J. E.; KLOSKO, J. S.; WEISHAAR, M. E. Terapia do esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

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Jackson Ferreira

Psicologia e desenvolvimento pessoal
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