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Doenças do fígado e sintomas de depressão: o que o corpo tenta dizer quando a mente adoece

Imagine acordar todos os dias com cansaço, falta de ânimo, irritabilidade e uma sensação constante de peso no corpo e na mente. A princípio, parece depressão — e muitas vezes é assim que o diagnóstico começa. Mas e se o verdadeiro vilão estiver um pouco mais abaixo do diafragma, no seu fígado?


Pouca gente sabe, mas o fígado — esse órgão silencioso que trabalha dia e noite para filtrar toxinas e metabolizar nutrientes — tem uma relação direta com o nosso humor e equilíbrio emocional. Estudos recentes vêm mostrando que doenças hepáticas podem provocar sintomas muito parecidos com os da depressão, como fadiga, perda de prazer, lentidão cognitiva e alterações de sono.

Ilustração da ligação do Fígado com as emoções

Mais do que isso: quando o fígado está sobrecarregado ou doente, ele altera o funcionamento de substâncias essenciais para o bem-estar mental, como a serotonina, a dopamina e o triptofano. É por isso que alguns pacientes tratados apenas com antidepressivos continuam sem melhora significativa — o problema pode estar sendo tratado do pescoço para cima, quando na verdade começa no abdômen.


Neste artigo, vamos explorar como as doenças do fígado podem agravar sintomas de depressão, quais são os principais sinais de alerta, e o que fazer para restaurar tanto o equilíbrio físico quanto o emocional.

Prepare-se para descobrir que a saúde mental e a saúde do fígado caminham juntas, e que cuidar do corpo é também cuidar da mente.


Doenças hepáticas mais comuns e seus sintomas

 

O fígado é um dos órgãos mais complexos e vitais do corpo humano. Ele atua como uma verdadeira central de comando metabólica, responsável por mais de 500 funções, incluindo a filtragem de toxinas, a produção de bile, o armazenamento de glicose e a síntese de proteínas.Quando ele adoece, os efeitos são sistêmicos — ou seja, atingem o corpo todo, inclusive o cérebro.


A seguir, conheça as principais doenças hepáticas que podem causar sintomas semelhantes aos da depressão e entender por que isso acontece.


1. Esteatose hepática (fígado gorduroso)


É uma das doenças mais comuns atualmente, resultado direto do estilo de vida moderno: alimentação ultraprocessada, sedentarismo, estresse e consumo de álcool. A esteatose hepática ocorre quando há acúmulo excessivo de gordura nas células do fígado, prejudicando seu funcionamento.


Sintomas comuns:

·         Fadiga persistente, mesmo após o descanso;

·         Dificuldade de concentração;

·         Humor deprimido;

·         Alterações no apetite;

·         Desânimo sem motivo aparente.


A relação com a depressão é tão próxima que pesquisadores têm chamado essa condição de “síndrome metabólica emocional”, em referência ao impacto psicológico do desequilíbrio hepático.


2. Hepatite viral (A, B e C)


As hepatites virais comprometem a capacidade do fígado de metabolizar substâncias e produzir energia. Além dos sintomas físicos conhecidos — icterícia, febre e mal-estar —, há alterações neuroquímicas que podem provocar sintomas psiquiátricos. Em especial, a hepatite C está associada a taxas mais altas de transtornos depressivos e ansiosos, mesmo após o tratamento.


Sintomas comuns:


·         Tristeza profunda sem explicação;

·         Irritabilidade;

·         Apatia;

·         Dificuldade para dormir;

·         Lapsos de memória.


Esses sinais, quando somados à fraqueza e ao mal-estar, podem ser confundidos com um quadro depressivo primário.


3. Cirrose hepática


A cirrose é o estágio mais grave das doenças do fígado. Nesse ponto, o órgão sofre danos irreversíveis e perde parte de sua capacidade funcional. Além dos sintomas físicos intensos, há uma forte correlação com encefalopatia hepática, uma condição em que substâncias tóxicas não são filtradas corretamente e afetam diretamente o cérebro.


Sintomas comuns:


·         Confusão mental;

·         Alterações de humor;

·         Dificuldade de raciocínio;

·         Tristeza e isolamento;

·         Desorientação e lentidão.


Esses sintomas muitas vezes são mal interpretados como depressão severa ou demência precoce, mas na verdade têm origem metabólica e tóxica.


4. Hepatite medicamentosa e intoxicação hepática


O uso prolongado de certos medicamentos — como analgésicos, antibióticos, antidepressivos e até suplementos — pode causar lesões hepáticas silenciosas. Essas lesões afetam a capacidade do fígado de eliminar substâncias químicas do corpo, interferindo na produção de neurotransmissores e, consequentemente, no equilíbrio emocional.


Sintomas comuns:

·         Falta de energia;

·         Irritabilidade;

·         Perda de interesse por atividades;

·         Redução da libido;

·         Sono não reparador.


Muitas pessoas entram em um ciclo vicioso: usam medicamentos para sintomas depressivos, mas esses próprios remédios a longo prazo podem agravar o quadro hepático, mantendo a depressão resistente ao tratamento.


Essas doenças mostram que a mente e o fígado conversam em silêncio, e quando um sofre, o outro sente. Na próxima parte, você vai entender como exatamente os mecanismos biológicos e neuroquímicos ligam as doenças hepáticas aos sintomas depressivos — e por que essa confusão diagnóstica é mais comum do que se imagina.


Como as Doenças do fígado potencializam ou se confundem com a depressão


Nos consultórios de psicologia e psiquiatria, é cada vez mais comum encontrar pessoas que chegam relatando sintomas clássicos de depressão — cansaço extremo, tristeza sem causa aparente, falta de prazer, irritabilidade e desânimo — mas, após uma investigação médica mais detalhada, descobre-se que a raiz do problema está no fígado, não na alma.

Essa interseção entre saúde mental e função hepática é fascinante e, ao mesmo tempo, desafiadora. O fígado e o cérebro mantêm uma comunicação constante por meio de mediadores inflamatórios, hormônios e neurotransmissores, e quando essa sintonia se perde, a mente sente os efeitos.


1. A conexão mente-fígado: quando a biologia fala mais alto


O fígado é responsável por metabolizar as substâncias químicas que circulam no corpo, incluindo hormônios do estresse como o cortisol e a adrenalina. Quando ele não consegue cumprir essa função de forma adequada, essas substâncias permanecem em níveis elevados, gerando um estado de inflamação crônica e disfunção neuroquímica.


Isso explica por que muitas pessoas com doenças hepáticas relatam:

·         Humor deprimido e ansioso;

·         Dificuldade de concentração;

·         Pensamentos lentos;

·         Falta de motivação;

·         Sensação de estar “mentalmente intoxicado”.


Em termos neurobiológicos, esse quadro é semelhante ao observado em transtornos depressivos maiores, o que torna o diagnóstico clínico ainda mais complexo.


2. A “falsa depressão” de origem hepática


Pesquisas recentes em psiconeuroimunologia — um campo que estuda a relação entre o sistema imunológico e as emoções — mostram que citocinas inflamatórias liberadas em doenças hepáticas alteram a comunicação entre os neurônios, principalmente nas áreas cerebrais responsáveis pelo humor, como o hipocampo e o córtex pré-frontal.

Isso cria um fenômeno conhecido como “pseudodepressão hepática”, no qual a pessoa apresenta sintomas emocionais intensos, mas que desaparecem ou melhoram quando o fígado é tratado.

Em outras palavras, o corpo está deprimido, não necessariamente a mente. Mas atenção, há muitos casos ainda que a as alterações no fígado andam de mãos dadas com causas emocionais. É necessário acompanhamento com Medico e Psicólogo para diagnóstico Presciso.


3. A via intestinal e a microbiota hepato-cerebral


Outro fator importante nessa relação é o eixo fígado-intestino-cérebro.O fígado, ao metabolizar substâncias, depende do equilíbrio da microbiota intestinal, e qualquer desequilíbrio (disbiose) pode liberar toxinas e amônia na corrente sanguínea, afetando diretamente o sistema nervoso central.


Essas substâncias podem alterar a absorção de nutrientes e a produção de serotonina e dopamina, os neurotransmissores do bem-estar, resultando em sintomas emocionais como:


·         Tristeza persistente;

·         Falta de energia;

·         Perda de interesse;

·         Distúrbios do sono e do apetite.


Assim, a depressão pode ser não apenas uma questão psicológica, mas uma resposta neuroquímica a um corpo sobrecarregado e inflamado.


4. A interação com medicamentos e substâncias


Além disso, pessoas que fazem uso prolongado de álcool, drogas recreativas ou até medicamentos de uso contínuo (ansiolíticos, anti-inflamatórios, anticoncepcionais, entre outros) podem desenvolver intoxicação hepática leve a moderada, sem sintomas evidentes no início. Com o tempo, o fígado sobrecarregado afeta a absorção de nutrientes e a eliminação de resíduos metabólicos, contribuindo para um estado de fadiga emocional constante.


O cérebro, privado de vitaminas essenciais como o complexo B, começa a manifestar sintomas parecidos com os da depressão, reforçando o ciclo de confusão diagnóstica.


Em resumo, o fígado pode ser o “órgão silencioso da depressão”, e compreender essa relação é fundamental tanto para psicólogos quanto para médicos. Quando a causa é identificada, o tratamento se torna mais assertivo, evitando que o paciente permaneça anos em uso de antidepressivos sem melhora real.


Na próxima parte, você vai entender como agir diante desse quadro — os tratamentos mais eficazes, exames essenciais e estratégias integradas para restaurar o equilíbrio entre corpo e mente.


Tratamentos e ações para melhorar o equilíbrio entre fígado e saúde mental


Quando falamos em saúde mental, a maioria das pessoas pensa imediatamente em psicoterapia, meditação, autocuidado e medicamentos antidepressivos. Mas quando a origem do sofrimento está também no corpo — especialmente no fígado — o tratamento precisa ser integrado, sistêmico e personalizado.

Afinal, não há mente saudável em um corpo intoxicado.


1. Diagnóstico preciso: a base de tudo


O primeiro passo é identificar a verdadeira origem dos sintomas. Muitos quadros rotulados como “depressão” podem, na verdade, ter componentes metabólicos. Por isso, é essencial realizar uma avaliação médica completa, incluindo:


·         Exames de sangue (função hepática, bilirrubinas, ALT, AST, GGT, fosfatase alcalina);

·         Avaliação de vitaminas (B12, D e ácido fólico);

·         Ultrassonografia abdominal;

·         Análise da microbiota intestinal;

·         Histórico de uso de medicamentos e álcool.

·         Analise funcional e conceituação cognitiva (Feita por Psicólogo)


Somente com essa visão global é possível desenhar uma estratégia que trate tanto a mente quanto o corpo.


2. Intervenções médicas e nutricionais


O fígado é um órgão com altíssima capacidade de regeneração. Em muitos casos, bastam alguns ajustes de estilo de vida e suplementação para que ele recupere parte de sua função. Algumas medidas incluem:


·         Adoção de dieta hepato-protetora, rica em frutas, vegetais, proteínas magras e alimentos antioxidantes (como cúrcuma, beterraba e chá-verde);


·         Redução do consumo de álcool e gorduras saturadas;

·         Hidratação adequada e prática de atividade física leve e regular;

·         Revisão de medicamentos que possam estar sobrecarregando o fígado.


Essas mudanças, quando associadas à psicoterapia, criam um ambiente fisiológico favorável à recuperação emocional.


3. Terapia e saúde emocional


É aqui que entra o papel crucial da psicologia e da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).Muitos pacientes com sintomas de fadiga e desânimo derivados de disfunções hepáticas desenvolvem crenças de incapacidade e culpa — acreditam que estão “fracassando” emocionalmente, quando na verdade estão apenas enfrentando um desequilíbrio biológico.

A TCC ajuda o paciente a:


·         Analise funcional e conceituação cognitiva

·         Reestruturar pensamentos negativos automáticos;

·         Identificar gatilhos emocionais e hábitos nocivos (como o uso de álcool e alimentação compulsiva);

·         Desenvolver autoconsciência corporal e emocional;

·        Aprender estratégias de relaxamento e manejo do estresse, como mindfulness, respiração diafragmática e técnicas de grounding.


Essa abordagem combinada aumenta significativamente a eficácia dos tratamentos médicos, pois o paciente se torna agente ativo da própria recuperação.


4. Medicina integrativa e prevenção


A medicina moderna avança para um modelo integrativo, que une psicologia, nutrição, endocrinologia, hepatologia e práticas mente-corpo. Recursos complementares, como acupuntura, ioga, meditação guiada e fitoterapia, têm mostrado resultados promissores em estudos recentes, auxiliando na redução da inflamação sistêmica e na melhora do humor.

O foco não é apenas tratar a doença, mas restaurar o equilíbrio. Quando o fígado volta a funcionar adequadamente, a mente se ilumina novamente — e o que antes parecia depressão, pode se revelar apenas um corpo pedindo para ser cuidado.


5. O caminho do autoconhecimento


Por fim, esse processo convida a uma reflexão mais profunda: A saúde mental não se limita à mente. É uma dança entre corpo, emoções, rotina e escolhas. Ao cuidar do fígado — órgão do metabolismo e, simbolicamente, da “filtragem” das experiências — aprendemos também a filtrar as emoções, os excessos e os pesos desnecessários da vida.

O corpo fala. E o fígado, em especial, fala por meio do humor, da energia e da vontade de viver.


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Jackson Ferreira

Psicologia e desenvolvimento pessoal
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