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Quando o medo de perder quem você ama passa a ocupar a sua vida, um olhar sobre Setembro Amarelo e Prevenção

há 2 dias
14 min de leitura

Orientações psicológicas para familiares de pessoas que atentaram contra a própria vida


Quando se fala em Setembro Amarelo e Prevenção. Existe um tipo de sofrimento que raramente aparece nas fotografias de família.


É o sofrimento de quem ama alguém que tentou tirar a própria vida.


Depois de uma tentativa, a família costuma entrar em um estado psicológico difícil de explicar. A pessoa continua ali, aparentemente seguindo a rotina, mas alguma coisa mudou.

O telefone toca e surge o medo.


A porta do banheiro demora alguns minutos e surge o receio.

A pessoa fica quieta e surge o medo.


Vai dormir mais cedo e surge a angústia.


Diz que está cansada e surge o medo.


Até mesmo um momento de tranquilidade pode provocar uma pergunta silenciosa:

“Será que está tudo bem mesmo?”


Quando já ocorreram mais tentativas em um intervalo curto e existe ainda um histórico anterior, essa preocupação não é simplesmente excesso de cuidado. Trata-se de uma situação que exige acompanhamento profissional contínuo e atenção da rede de apoio.


Ao mesmo tempo, existe uma segunda pessoa que frequentemente acaba esquecida nessa história: quem está ao lado.

Este texto é especialmente dirigido a esses familiares.


Não para ensinar a ser em psicólogos, psiquiatras ou vigilantes da própria casa.


Mas para ajudá-lo a compreender o que está acontecendo, como participar do cuidado de maneira adequada e, principalmente, como não transformar o amor em uma prisão construída pelo medo.


Setembro Amarelo e Prevenção

1. Primeiro: mais de uma tentativa recente não devem ser tratadas como “uma fase difícil da convivência em família”


É importante começar por uma distinção.


Conflitos conjugais, separações, dificuldades financeiras, perdas, frustrações, discussões ou mudanças importantes na vida podem estar presentes no contexto de uma crise. Entretanto, comportamento suicida não deve ser reduzido automaticamente ao problema familiar ou conjugal que estava acontecendo naquele momento.


O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial, envolvendo diferentes dimensões psicológicas, sociais, biológicas e ambientais (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2026).


Portanto, frases e pensamentos automaticos como:

“Ele fez isso por causa da nossa briga.”

“Se eu tivesse agido diferente, isso não teria acontecido.”

“Preciso descobrir o que estou fazendo de errado.”


podem parecer tentativas de encontrar uma explicação, mas podem colocar sobre o parceiro(a) ou familiar uma responsabilidade que não lhe pertence integralmente.


Existe uma diferença fundamental entre responsabilidade e participação.

Um familiar companheiro pode participar do cuidado.

Pode oferecer presença.

Pode observar mudanças.


Pode comunicar informações importantes à equipe.

Pode ajudar na organização da rotina.

Pode acompanhar consultas quando isso for apropriado.

Pode colaborar com um plano de segurança construído pelos profissionais.

Mas ele não é o responsável pelo tratamento.

Essa distinção é fundamental.


Uma tentativa de tirar a própria vida anterior é reconhecida como um importante fator de risco para novos episódios, e materiais do Ministério da Saúde destacam que a repetição de tentativas e o intervalo reduzido entre elas merecem atenção especial (BRASIL, 2020). A Organização Mundial da Saúde também reconhece a tentativa prévia como um importante fator de risco (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2026).


Neste caso o acompanhamento psiquiátrico e psicológico é extremamente relevante.

Mas isso não significa que a família possa simplesmente “baixar a guarda”.


Significa que existe uma equipe profissional com a qual a família precisa aprender a trabalhar.


2. O familiar não precisa substituir a equipe. Precisa fazer parte da rede de apoio para a prevenção ao suicídio


Uma das maiores confusões depois de uma tentativa de suicídio acontece quando o companheiro pensa:

“Agora eu preciso cuidar dela 24 horas por dia.”


É compreensível.

Mas isso pode rapidamente transformar a relação conjugal em uma relação de vigilância.

E vigilância permanente não é sinônimo de cuidado.


A literatura sobre familiares de pessoas que apresentaram esse comportamento descreve justamente essa experiência: depois de uma tentativa, familiares podem passar a monitorar intensamente qualquer mudança, experimentar ansiedade significativa e sentir dificuldade para saber qual é a melhor maneira de ajudar (MARSHALL et al., 2023).

É uma situação paradoxal.


Quanto mais medo a pessoa sente de perder o outro, maior pode ser sua necessidade de controlar.

E quanto maior a necessidade de controlar, maior pode ser o desgaste de ambos.

Por isso, o objetivo não deve ser transformar o familiar cuidador em um “detector humano de risco”.

O objetivo é construir uma rede.


Essa rede pode envolver:

  • a própria paciente;

  • psicólogos;

  • psiquiatra;

  • familiares de confiança;

  • amigos próximos, quando apropriado;

  • serviços de saúde;

  • atendimento de emergência quando necessário;

  • e o próprio companheiro (a).


Cada pessoa possui uma função diferente.


O parceiro oferece vínculo.

A psicóloga oferece psicoterapia.

O psiquiatra avalia e conduz o tratamento médico e farmacológico quando indicado.

A rede familiar oferece suporte.

Os serviços de emergência entram quando existe uma situação que ultrapassa a capacidade de manejo daquele momento.

Essa divisão de responsabilidades protege tanto a pessoa em sofrimento quanto quem está tentando ajudá-la.


3. “Mas e se eu não perceber os sinais?”


Essa talvez seja uma das perguntas mais dolorosas para quem vive essa situação.

Depois de uma tentativa, o familiar pode começar a acreditar que precisa interpretar cada comportamento.

“Ela está muito quieta.”

“Hoje ela parece diferente.”

“Está dormindo demais.”

“Está irritada.”

“Está bem demais.”

“Está sorrindo, mas será que está fingindo?”

Esse estado de alerta permanente pode produzir hipervigilância.

E existe uma armadilha psicológica aí.

Quando alguém está muito assustado, o cérebro procura constantemente sinais que confirmem o perigo.

É um mecanismo compreensível de proteção.

O problema é que ele pode fazer com que a pessoa deixe de viver e passe apenas a monitorar.

A literatura qualitativa sobre familiares descreve justamente esse fenômeno: após o comportamento suicida, familiares frequentemente relatam ansiedade intensa, vigilância constante e dificuldade para compreender como oferecer apoio adequado (MARSHALL et al., 2023).

Portanto, uma pergunta mais funcional não é:

“Como eu consigo perceber qualquer sinal antes que alguma coisa aconteça?”

É:

“Temos um plano claro para saber o que fazer caso apareçam sinais de alerta?”

Essa mudança parece pequena.

Psicologicamente, porém, é enorme.

Você deixa de tentar controlar o imprevisível e passa a organizar aquilo que é possível organizar.


4. O que o casal precisa discutir quando a crise estiver estável


Uma conversa importante não deve acontecer somente durante uma emergência.

Ela pode acontecer em um momento relativamente tranquilo, preferencialmente com conhecimento e orientação da equipe responsável.

O objetivo não é interrogá-la.

Também não é exigir garantias como:

“Você promete que nunca mais vai fazer isso?”

Promessas desse tipo podem dar uma falsa sensação de segurança.

Em vez disso, o casal pode conversar sobre um plano previamente combinado.

Por exemplo:

“Se você perceber que seus pensamentos estão piorando, quem devemos procurar?”

“Qual profissional deve ser avisado?”

“Qual familiar pode ser acionado?”

“Em que situação devemos procurar atendimento de urgência?”

“Existe um plano de segurança construído com sua psicóloga ou psiquiatra?”

“Quais sinais você percebe em si mesma quando começa a entrar em uma crise?”

“Como eu posso ajudar sem invadir?”

“Quando você prefere ficar acompanhada?”

“Quando precisa de espaço?”

Essas perguntas são diferentes de:

“Você está pensando em se matar?”

“Você vai fazer alguma coisa?”

“Você está escondendo alguma coisa de mim?”

A comunicação precisa ser direta quando necessário, mas não deve transformar toda interação familiar em uma investigação.

O Ministério da Saúde  e profissionais da Psicologia recomendam conversar com a pessoa, ouvir sem julgamento, incentivar a busca de ajuda profissional e, diante de perigo imediato, não deixá-la sozinha e procurar atendimento de emergência (BRASIL, 2022).


5. Não transforme a casa em uma UTI emocional


Depois de uma ou mais tentativas recentes, é compreensível que os familiares queiram controlar tudo.

A rotina.

Os horários.

As amizades.

As mensagens.

Os medicamentos.

O telefone.

O que ela está fazendo.

Onde ela está.

Quanto tempo ficou no banheiro.

Quanto tempo dormiu.

O que publicou nas redes sociais.

Com quem conversou.

O problema é que, sem orientação profissional, esse controle pode se tornar uma tentativa impossível de eliminar completamente o risco.

E risco zero não é uma promessa que qualquer pessoa da família consiga oferecer.

A prevenção responsável trabalha com avaliação, acompanhamento, comunicação, planejamento de segurança e acesso adequado ao cuidado.

Intervenções estruturadas de planejamento de segurança e acompanhamento após crises suicidas apresentam evidências de redução de comportamentos suicidas em determinados contextos, embora devam ser realizadas dentro de uma estratégia clínica adequada e não improvisadas pelo familiar (STANLEY et al., 2018).

Por isso, uma pergunta muito mais útil para os familiares fazerem à equipe é:

“Como eu posso participar do plano de segurança dela?”

Essa é uma pergunta clínica.

“Como eu faço para impedir que isso aconteça novamente?” é uma pergunta humana e compreensível, mas impossível de responder com garantia.


6. Segurança em casa também faz parte do cuidado do Setembro Amarelo e Prevenção


Quando existe risco significativo, segurança ambiental merece ser discutida com os profissionais responsáveis pelo caso.

O Ministério da Saúde orienta, diante de risco de suicídio, que sejam reduzidos os acessos a meios que possam ser utilizados para provocar a própria morte, especialmente quando a pessoa vive com familiares (BRASIL, 2022).

Isso não significa transformar a casa em uma prisão.

Significa avaliar, junto à equipe, quais medidas de segurança são necessárias naquele momento.

Dependendo da situação clínica, isso pode envolver revisão do acesso a medicamentos, objetos ou outros meios potencialmente perigosos.

É importante que esse assunto seja tratado individualmente.

O que é adequado para uma pessoa pode não ser adequado para outra.

Por isso, a família não deve montar sozinha um protocolo de segurança baseado em informações encontradas na internet.

O plano deve ser individualizado pela equipe que acompanha a paciente.


7. Uma das perguntas mais importantes: “Ela está em tratamento, mas a equipe sabe de tudo?”


Estar em acompanhamento não significa necessariamente que todos os profissionais envolvidos possuem todas as informações relevantes.

Depois de uma tentativa, é importante que a equipe tenha conhecimento do histórico pertinente, especialmente quando houve repetição em curto intervalo.

Se o familiar percebe mudanças importantes, novos episódios de ideação suicida, falas preocupantes, alterações relevantes de comportamento ou acontecimentos que possam interferir no tratamento, ele pode conversar com a equipe sobre a melhor maneira de comunicar essas informações.

Isso não significa quebrar a privacidade da paciente ou assumir o controle do tratamento.

Significa reconhecer que, em situações de risco, familiares podem possuir informações observacionais importantes.

A literatura mostra que familiares frequentemente desejam maior orientação e participação por parte dos serviços de saúde depois de uma tentativa de tirar a própria vida (LAVERS; ANDRIESSEN; KRYSINSKA, 2022).

Portanto, uma boa pergunta para a psicóloga e para o psiquiatra pode ser:

“Qual é a melhor maneira de eu comunicar a vocês mudanças que eu observar em casa?”

Essa pergunta estabelece parceria sem transformar o familiar em profissional.


8. Os familiares de convívio também podem desenvolver trauma psicológico


Existe outro ponto que frequentemente desaparece quando todos estão preocupados com a pessoa que tentou o suicídio:

o sofrimento de quem encontrou, acompanhou ou ficou sabendo da tentativa.

A experiência pode provocar medo intenso, culpa, raiva, tristeza, confusão, dificuldade de concentração, alterações do sono e sensação permanente de ameaça.

Nem todos desenvolverão um transtorno psicológico.

Mas isso não significa que o impacto seja pequeno.

Revisões sistemáticas mostram que familiares e cuidadores podem apresentar sofrimento psicológico significativo, além de dificuldades para administrar a responsabilidade percebida pelo cuidado (LAVERS; ANDRIESSEN; KRYSINSKA, 2022; MARSHALL et al., 2023).

Alguns pensamentos automáticos podem ser particularmente frequentes:

“Eu deveria ter percebido.”

“E se acontecer de novo?”

“Não posso deixá-la sozinha.”

“Preciso ficar atento o tempo inteiro.”

“Não posso reclamar porque ela está sofrendo mais.”

Esse último pensamento merece atenção.

O sofrimento não é uma competição.

Você pode reconhecer:

“Ela está sofrendo muito.”

e simultaneamente reconhecer:

“Eu também estou sofrendo.”

Uma coisa não invalida a outra.


9. Cuidar de si não significa abandonar quem está em sofrimento


Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes para o familiar.

Cuidar de si não é egoísmo.

Dormir.

Trabalhar.

Encontrar amigos.

Fazer exercício.

Sair para caminhar.

Ter momentos sozinho.

Continuar com atividades que proporcionam sentido.

Fazer psicoterapia.

Ter alguém com quem conversar.

Tudo isso pode parecer secundário quando existe medo de uma nova tentativa.

Mas uma pessoa emocionalmente esgotada também perde capacidade de oferecer apoio consistente.

A literatura sobre familiares mostra que a sobrecarga e o sofrimento dos cuidadores são questões relevantes e que intervenções direcionadas aos próprios familiares podem melhorar aspectos de saúde mental, embora a base de evidências ainda seja limitada em alguns contextos (MULLER et al., 2021).

Portanto, um(a) companheiro(a) também pode precisar de um espaço terapêutico.

Não necessariamente para aprender “como salvar a esposa/marido”.

Mas para trabalhar:

  • medo;

  • culpa;

  • raiva;

  • impotência;

  • ansiedade;

  • hipervigilância;

  • limites;

  • comunicação;

  • relacionamento conjugal;

  • tomada de decisões;

  • e o impacto psicológico de viver sob ameaça percebida.


10. Culpa não é responsabilidade


Existe uma diferença entre essas duas coisas.

Responsabilidade significa reconhecer aquilo que está sob nosso controle.

Culpa frequentemente significa atribuir a nós aquilo que não controlamos.

O familiar mais próximo pode ser responsável pela maneira como conversa.

Pode ser responsável por buscar ajuda quando percebe uma emergência.

Pode ser responsável por comunicar informações relevantes à equipe.

Pode ser responsável por cuidar da própria saúde mental.

Mas ele não controla sozinho o estado psicológico da outra pessoa.

Não controla todos os pensamentos dela.

Não controla todos os fatores que participam de uma crise.

E não pode assumir para si a promessa impossível de garantir que nunca haverá outra tentativa.

A própria Organização Mundial da Saúde ressalta que o comportamento suicida possui múltiplos determinantes e não pode ser explicado por uma única causa (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2026).

Isso é importante porque tira o familiar de uma posição impossível:

a de acreditar que precisa encontrar “o erro” que causou tudo.


11. E quando existe conflito no relacionamento?


Aqui entramos em uma área delicada.

O fato de uma pessoa estar em sofrimento psicológico não significa que todos os problemas do relacionamento desapareçam.

O casal ainda pode ter conflitos.

Pode existir ressentimento.

Pode existir desgaste.

Pode existir falta de intimidade.

Pode existir raiva.

Pode existir necessidade de separação.

Pode existir uma história conjugal complicada.

E reconhecer isso não significa falta de amor.

Ao mesmo tempo, momentos de crise suicida não são necessariamente o momento adequado para resolver toda a história do relacionamento.

Imagine alguém tentando apagar um incêndio enquanto discute quem foi responsável por colocar a cortina perto da vela.

Primeiro, é necessário lidar com a emergência.

Depois, existe espaço para compreender como aquela relação chegou até ali.

Isso pode incluir psicoterapia individual, terapia de casal quando indicada e acompanhamento psiquiátrico.

Mas uma coisa precisa ficar clara:

o relacionamento não deve se transformar em uma espécie de contrato de sobrevivência.

“Eu fico com você porque tenho medo de que você faça alguma coisa.”

Essa frase revela uma situação emocionalmente insustentável.

Relacionamentos precisam ser construídos sobre vínculo, respeito, responsabilidade e liberdade possível — não sobre ameaça permanente.

Isso não significa abandonar alguém em crise.

Significa compreender que amar alguém e ser responsável pela vida dessa pessoa são coisas diferentes.


12. O que dizer — e o que evitar


Algumas frases podem abrir espaço para diálogo:

“Eu percebo que você está sofrendo e quero entender.”

“Você não precisa enfrentar isso sozinha(o).”

“Vamos procurar ajuda quando isso ficar pesado demais.”

“Quero entender como posso ajudar sem tentar controlar você.”

“Se você perceber que a situação está piorando, vamos acionar sua equipe.”

“Eu também quero aprender com os profissionais como participar desse cuidado.”

Por outro lado, frases como estas podem aumentar culpa, vergonha ou isolamento:

“Pense em tudo que você tem.”

“Você tem uma família que te ama.”

“Você está fazendo isso comigo.”

“Depois de tudo que eu faço por você…”

“Você precisa ser forte.”

“Promete que nunca mais vai fazer isso?”

“Você está pensando nisso de novo? De novo?”

O objetivo não é encontrar a frase perfeita.

É construir uma comunicação que combine acolhimento, clareza e encaminhamento para ajuda.


13. Quando o familiar cuidador principal deve deixar de tentar resolver sozinho?


Essa é uma pergunta prática.

Se houver suspeita de risco imediato, uma mudança importante em relação ao padrão habitual da pessoa, uma nova tentativa, intoxicação, comportamento gravemente desorganizado, perda importante de controle ou qualquer situação em que o familiar entenda que a segurança está comprometida, não é hora de discutir relacionamento.

É hora de buscar atendimento de urgência.

O Ministério da Saúde orienta que, diante de perigo imediato, a pessoa não seja deixada sozinha e que sejam acionados serviços de saúde e emergência. O SAMU 192 inclui tentativas de suicídio entre as situações para as quais presta atendimento de urgência (BRASIL, 2022).

No Brasil, dependendo da situação, podem ser acionados:

  • SAMU — 192;

  • UPA ou pronto-socorro;

  • serviços hospitalares de emergência;

  • CAPS e demais pontos da Rede de Atenção Psicossocial;

  • psicóloga e psiquiatra que acompanham o caso.

O Ministério da Saúde informa que a Rede de Atenção Psicossocial articula diferentes pontos de cuidado, incluindo atenção básica, CAPS, serviços de urgência e emergência e atenção hospitalar (BRASIL, 2022).


O CVV, pelo telefone 188, também oferece apoio emocional, mas não substitui atendimento médico ou de emergência quando existe risco imediato.


14. Uma orientação especialmente importante: não faça do medo o centro da relação


Depois de uma tentativa, é possível que a relação fique organizada em torno de uma única pergunta:

“Como impedir que aconteça novamente?”

Só que um casal não consegue viver indefinidamente dentro dessa pergunta.

Em algum momento, será necessário voltar a perguntar:

“Como podemos viver?”

Essa segunda pergunta inclui tratamento.

Inclui segurança.

Inclui rotina.

Inclui trabalho.

Inclui amizade.

Inclui lazer.

Inclui sexualidade.

Inclui projetos.

Inclui conflitos.

Inclui limites.

Inclui momentos de silêncio.

Inclui aquilo que fazia daquela pessoa mais do que alguém em sofrimento.

A pessoa que tentou suicídio não deve ser reduzida à tentativa.

E o companheiro também não deve ser reduzido ao papel de cuidador.

Existe uma mulher além da crise.

E existe um homem além do medo.


15. Para o familiar mais proximo que talvez esteja lendo este texto


Talvez você esteja cansado.

Talvez esteja assustado.

Talvez esteja com raiva e sinta culpa por estar com raiva.

Talvez tenha vontade de fugir por algumas horas e imediatamente pense:

“Como posso pensar em mim numa situação dessas?”

Talvez você esteja tentando parecer forte para todo mundo.

Mas força não significa não sentir.

Você pode amar profundamente alguém e, ainda assim, estar exausto.

Pode querer ajudar e, ao mesmo tempo, não saber mais o que fazer.

Pode sentir medo.

Pode precisar de ajuda.

Pode precisar de psicoterapia.

Pode precisar conversar com alguém que não esteja diretamente envolvido na crise.

E nada disso faz de você um marido ruim.

Você não precisa escolher entre cuidar dela e cuidar de si.

O caminho mais saudável é construir uma rede em que essas duas necessidades possam existir.

A pessoa que tentou contra a própria vida precisa de tratamento.

E você também precisa de espaço psicológico para elaborar aquilo que está vivendo.


16. Uma forma mais saudável de pensar sua função


Talvez seja útil substituir uma antiga pergunta por uma nova.

Em vez de:

“Como eu consigo impedir que a pessoa faça alguma coisa?”

experimente trabalhar com:

“Como posso ser uma pessoa segura, disponível e responsável dentro da rede de cuidado dela, sem assumir aquilo que pertence aos profissionais e sem abandonar a minha própria saúde?”

Essa mudança não resolve a crise.

Mas organiza o lugar de cada pessoa.

Você não é o psiquiatra.

Você não é a psicóloga.

Você não é o serviço de emergência.

Você é o companheiro.

E justamente por isso pode oferecer algo que nenhum protocolo substitui completamente:

presença humana.

Mas presença humana não significa vigilância permanente.

Significa poder dizer:

“Eu estou aqui.”

“Eu quero entender.”

“Vamos procurar ajuda.”

“Eu não vou carregar isso sozinho.”

“E você também não precisa carregar sozinha.”


Quando procurar ajuda imediatamente


Este artigo é educativo e não substitui a avaliação da equipe que acompanha a paciente.

Se houver risco imediato, tentativa em andamento, intoxicação, alteração importante de consciência ou comportamento ou qualquer situação em que a família não consiga garantir segurança, procure atendimento de emergência imediatamente.

No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192 em situações de urgência, incluindo tentativas de suicídio. (BRASIL, [s.d.]).


Considerações finais


Quando alguém que amamos tenta tirar a própria vida, a família também entra em crise.

Só que existe uma tendência de concentrar toda a atenção na pessoa que realizou a tentativa e esquecer quem ficou ao lado tentando compreender o que aconteceu.

Esse familiar também precisa ser ouvido.

Precisa de informação.

Precisa de limites.

Precisa de uma rede.

Precisa compreender que apoiar não é controlar.

Que acompanhar não é vigiar.

Que amar não é assumir responsabilidade absoluta pela vida do outro.

E que cuidar de si não é abandonar quem sofre.

Depois de uma experiência tão grave, talvez a tarefa mais importante não seja encontrar uma explicação simples para tudo o que aconteceu.

Talvez seja construir, pouco a pouco, uma maneira mais segura de seguir em frente.

Com tratamento.

Com diálogo.

Com limites.

Com rede de apoio.

Com responsabilidade compartilhada.

E, sobretudo, sem exigir que uma única pessoa carregue sozinha um problema que precisa ser cuidado por uma rede inteira.


Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Saúde. Suicídio (prevenção). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022. Atualizado em 7 jul. 2026. Disponível em: Ministério da Saúde — Suicídio (Prevenção). Acesso em: 23 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Ações do Ministério da Saúde: suicídio (prevenção). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022. Atualizado em 7 jul. 2026. Disponível em: Ministério da Saúde — Ações de prevenção do suicídio. Acesso em: 23 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio: orientações para educadores e profissionais da saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2020.

BRASIL. Ministério da Saúde. SAMU 192. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s.d.]. Disponível em: SAMU 192 — Ministério da Saúde. Acesso em: 23 set. 2026.

GORE, Kristie L. et al. Interventions for people who have attempted suicide and their family members: a systematic review. Rand Health Quarterly, v. 10, n. 4, p. 5, 2023.

LAVERS, George; ANDRIESSEN, Karl; KRYSINSKA, Karolina. A systematic review of the experiences and support needs of informal caregivers for people who have attempted suicide or experienced suicidal ideation. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 19, n. 9, p. 5181, 2022. DOI: 10.3390/ijerph19095181.

MARSHALL, Paul et al. Caring for a friend or family member who has experienced suicidal behaviour: a systematic review and qualitative synthesis. Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice, v. 96, n. 2, p. 426-447, 2023. DOI: 10.1111/papt.12449.

MULLER, Alexandra E. et al. Effectiveness of psychosocial interventions for family members and other informal support persons of individuals who have made a suicide attempt. Crisis, 2021. DOI: 10.1027/0227-5910/a000836.

STANLEY, Barbara et al. Comparison of the Safety Planning Intervention with follow-up vs usual care of suicidal patients treated in the emergency department. JAMA Psychiatry, v. 75, n. 9, p. 894-900, 2018. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2018.1776.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Preventing suicide: a resource for media professionals. Update 2023. Geneva: World Health Organization, 2023. ISBN 978-92-4-007684-6.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Suicide. Geneva: World Health Organization, 2026. Atualizado em 28 ago. 2026. Disponível em: World Health Organization — Suicide. Acesso em: 23 set. 2026.

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Jackson Ferreira

Psicologia e desenvolvimento pessoal
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